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id da página: 3130 Lie Zi – O Advinho

Lie Zi Advinho

LIE ZI — O ADIVINHO


VIDE: LIE-TZEU : UN DEVIN

LIE ZI, O LIVRO DO VAZIO PERFEITO

Um adivinho dos mais transcendentais, chamado Ki-hien, originário do principado de Ts’i, estabeleceu-se no de Tcheng. Predizia as desgraças e a morte, com a precisão do dia exato, infalivelmente. Por isso, os habitantes de Tcheng, que não desejavam saber tanto, fugiam de longe ao vê-lo aproximar-se. — Lie-tzeu, tendo ido vê-lo, maravilhou-se com o que viu e ouviu. Quando voltou, disse a seu mestre Hou-K’iou-tzeu: Até aqui eu considerava vossa doutrina a mais perfeita, mas eis que encontrei uma superior. — Hou-K’iou-tzeu disse: Isso se deve ao fato de que não conheces toda a minha doutrina, tendo recebido de mim apenas o ensinamento exotérico, e não o esotérico. Teu saber assemelha-se aos ovos que põem as galinhas privadas de galo; falta-lhes o germe essencial. Além disso, ao discutir, é necessário ter fé firme em sua opinião, sob pena de, vacilando, ser adivinhado pelo adversário. Foi o que te aconteceu. Traíste a ti mesmo e tomaste, em seguida, o faro natural de Ki-hien por uma adivinhação transcendente. Traze-me esse homem, para que eu veja do que se trata. — No dia seguinte, Lie-tzeu trouxe o adivinho a Hou-K’iou-tzeu, sob o pretexto de uma consulta médica. Quando saiu, o adivinho disse a Lie-tzeu: Ai de mim! vosso mestre é um homem morto. Seu fim chegará em poucos dias. Ao examiná-lo, tive uma visão estranha, semelhante a cinzas úmidas, presságio de morte. — Quando despediu o adivinho, Lie-tzeu voltou para casa em lágrimas e relatou a Hou-K’iou-tzeu o que lhe fora dito. Hou-K’iou-tzeu disse: É que me manifestei a ele sob a figura de uma terra inerte e estéril, com todas as minhas energias detidas (aspecto que o vulgo só apresenta à aproximação da morte, mas que o contemplativo apresenta à vontade). Ele foi iludido. Traze-o novamente, e verás a continuação da experiência. — No dia seguinte Lie-tzeu trouxe o adivinho. Quando este saiu, disse a Lie-tzeu: É feliz que vosso mestre tenha recorrido a mim; já há melhora; as cinzas se reanimam; vi sinais de energia vital. ... Lie-tzeu transmitiu estas palavras a Hou-K’iou-tzeu, que disse: É que me manifestei a ele sob o aspecto de uma terra fecundada pelo céu, a energia elevando-se das profundezas sob o influxo de cima. Ele viu bem, mas interpretou mal, tomando por natural o que era contemplação. Traze-o ainda, para que continuemos a experiência. — No dia seguinte Lie-tzeu trouxe o adivinho. Após seu exame, este disse a Lie-tzeu: Hoje encontrei em vosso mestre um aspecto vago e indeterminado, do qual não posso extrair prognóstico; quando seu estado se definir melhor, poderei dizer o que é. ... Lie-tzeu relatou estas palavras a Hou-K’iou-tzeu, que disse: É que me manifestei a ele sob a figura do grande caos ainda não diferenciado, todas as minhas potências em estado de equilíbrio neutro. De fato, não podia extrair nada definido dessa figura. Um redemoinho na água pode ser causado tanto pelos jogos de um monstro marinho, por um rochedo, pela força da corrente, por um jorro, por uma cascata, pela junção de dois cursos d’água, por uma barragem, por uma derivação, pela ruptura de um dique; efeito idêntico de nove causas distintas, (daí a impossibilidade de concluir diretamente do redemoinho a natureza de sua causa; é necessário que um exame ulterior a determine). Traze-o mais uma vez, e verás a continuação. — No dia seguinte, o adivinho, tendo retornado, deteve-se apenas um instante diante de Hou-K’iou-tzeu, nada compreendeu, perdeu a compostura e fugiu. ... Corre após ele, disse Hou-K’iou-tzeu. ... Lie-tzeu obedeceu, mas não pôde alcançá-lo. ... Ele não voltará, disse Hou-K’iou-tzeu. É que lhe manifestei minha saída do princípio primordial antes dos tempos, um movimento no vazio sem forma aparente, um borbulhar da potência inerte. Isso foi demasiado para ele, por isso fugiu. — Constatando que, de fato, ainda nada compreendia da doutrina esotérica de seu mestre, Lie-tzeu confinou-se em sua casa durante três anos consecutivos. Preparava a comida para sua esposa, servia os porcos como se fossem homens (a fim de destruir em si os preconceitos humanos). Desinteressou-se de todas as coisas. Reduziu tudo o que nele era cultura artificial à simplicidade natural primitiva. Tornou-se rude como um torrão de terra, alheio a todos os eventos e acidentes, e permaneceu assim concentrado em unidade até o fim de seus dias.